Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Artigo: Algumas reflexões pessoais, intimamente ligadas ao mercado de HQs.

Por José Salles

“Meu Passado Me Condena”, é o nome de um filme, ou de um livro, talvez um simples dito popular, não sei. Para mim, essa frase se encaixa perfeitamente. Lembremo-nos que a palavra “condenado”, segundo o novo dicionário Universal da Texto Editores, significa, entre outras coisas: criminoso, facínora, réprobo.

Desta forma, meu passado me torna um criminoso – e torna mesmo, hoje tenho consciência dos inúmeros erros e crimes de meu pretérito pessoal que, se ludibriaram a lei dos homens, certamente não escaparão da Justiça Divina.

E dentre meus inúmeros crimes, o mais grave não está nas atitudes propriamente ditas, atitudes de alguém egoísta, soberbo, guloso, arrogante, orgulhoso (ainda hoje luto ferrenhamente contra esses sentimentos, não duvidem), ateu, materialista, hedonista, niilista, revoltadinho, irado, etc.

Não, muito pior do que ser assim (pecados não exclusivos de minha pessoa, é claro) é escrever dominado por sentimentos tão nefastos – e muito, muito pior mesmo, é tornar públicos estes escritos, transmitindo aquelas péssimas energias, aquelas péssimas sensações do autor, para outras pessoas (quase sempre, seus amigos, conhecidos e alguns outros interessados).

Eis aí o crime mais hediondo, que há de ter punição muito mais rigorosa do que a cadeira elétrica ou a câmara de gás – talvez não diante da justiça dos homens, mas certamente aos olhos de Deus. Como eu mesmo pratiquei esse crime, essa infâmia de escrever, publicar e divulgar obras que passavam aos leitores impressões negativistas – e, com isso, motivando-os a sentirem emoções de raiva, baixa sensualidade, revolta imatura, desesperança, misantropia, misoginia, desânimo e outros horrores da sociedade humana carnal – sendo eu um facínora das letras, tenho que esperar, dentro da lei de causa e efeito, algum merecido castigo que eu mesmo criei para mim.

Mas, pelo visto, mesmo quando eu não acreditava, mesmo imerso em trevas morais, eu era amado pelo Deus Todo Poderoso. Não só meus crimes não foram descobertos pela justiça dos homens, mas principalmente pelo fato de eu ter sobrevivido – e, mesmo imerecidamente, ter sido curado de doenças e estado pronto para aceitar a divindade bendita do dia-a-dia do presente, bênção diária feito chance para redenção de meu passado tenebroso.

Como se vê, se outrora eu não tinha esperança alguma, Deus jamais perdeu a esperança em mim. A Luz me voltou a brilhar, lentamente, no ano de 2005, quando retornei à minha terrinha adorada.

Dizem que nós brasileiros somos apegados à nossa terra, e eu faço prova disso, hoje posso ser facilmente incluído nalguma letra de música caipira, nalguma moda de viola que narre a tristeza do homem do campo que vai morar na cidade grande – mas, principalmente, a alegria que sente quando retorna ao lar, o renovar da vida, a procura dos bons valores e das boas virtudes perdidos na jornada pelo mundo pagão.

O nascimento da Júpiter II (primeiramente, como SM Editora), exatamente em agosto de 2005 com o lançamento de Máscara Noturna 1, mostra que essa trajetória que agora completa 5 anos, representa e muito as mudanças que aconteceram em minha vida. Nos primeiros gibis lançados, ainda se percebe um pouco de meu passado criminoso, tendo sido eu o responsável por lançamentos de gibis que divulgavam sentimentos nefastos, como o hedonismo frívolo e a justiça pelas próprias mãos (caso do Máscara Noturna), ou que exaltassem porcarias como as perversões sexuais, o niilismo, a desesperança, o ateísmo anticristão (caso de Jack The Fag).

Entretanto, as mudanças estavam a caminho: os ares da boa terrinha traziam consigo os bons valores e as boas virtudes que me foram passadas como inestimável tesouro moral, na infância e tenra juventude. Eu o perdi pelo caminho terreno, mas começo a reencontrá-lo, agora ainda mais revigorado, transformador, fazendo-me consolado quanto ao passado, firme e saudável no presente, cheio de vigor, de alegria, de esperança num futuro radioso.

Tive até chance de dar um fim menos indigno tanto ao Máscara Noturna quanto ao Jack The Fag. Pessoas e fatos muito me ajudaram nesta recuperação (Deus sempre pondo no caminho daqueles que sinceramente se arrependem, anjos em forma de gente, aliados irresistíveis na estrada do Bem), isso daria um artigo ainda mais extenso do que este.

O que eu gostaria de dizer é que, hoje, os gibis da Júpiter II, produzidos por artistas e personagens variados, pessoas de diversas partes do Brasil, têm um eixo comum, uma necessidade imperiosa: passar ao leitor boas energias, bons sentimentos, entretenimento de qualidade.

Mesmo num gibi de terror, isso é possível de ser feito. Mas o melhor mesmo é lançar personagens infantis como o Krahomim e a Turma do Gabi, e super-heróis notoriamente a serviço do Bem, como o Raio Negro, o Tormenta, o Corcel Negro, o Capoeira Negro, Blenq etc.

Claro que cometemos erros, ninguém é perfeito, muito menos um editor com um passado como o meu. Mas é nossa intenção e, agindo assim, temos a plena certeza de que nossos gibis agradarão em cheio ao povo brasileiro, que em grande número irá se identificar com nossos personagens.

Imagino que a leitura de um artigo como este – especialmente quando lido por ex-parceiros, aqueles que ainda continuam vivendo naquele mesmo caminho que eu trilhava no passado – deva causar certa irritação, ou quem sabe, sarcástica comiseração.

Só não gostaria que pensassem que sou um hipócrita, que simplesmente se trate do autor de Contos Pervertidos, Monakhós, Road SM, Credo Creditum e Jack The Fag, entre inúmeras barbaridades, que o autor dessas melecas passe a bradar por valores morais, como se fosse um santo. Claro que não. Minha transformação íntima, tão ligada ao direcionamento editorial da Júpiter II, foi (e ainda está sendo) algo sofrido, período de muito suor, lágrimas e solidão.

E continuo cada vez mais resoluto, todo dia, a buscar viver de forma contrária à que vivia antes. E não só eu ganho com isso, mas também os colaboradores e leitores dos gibis da Júpiter II.

José Salles é roteirista de quadrinhos, editor da independente Júpiter II e ganhador do Troféu Jayme Cortez 2010 cedido pela AQC-ESP. Este artigo foi publicado originalmente no blog da Júpiter II Editora e reproduzido com autorização do autor.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Artigo: “A Piada Mortal” e “Coringa”, a cabeça e a cauda

Jota Silvestre

Por conta do enorme sucesso de Batman TDK – e mais ainda por tudo que envolveu Heath Ledger, da morte repentina à conquista póstuma do Oscar – a DC, nos Estados Unidos, e a Panini, no Brasil, promoveram o relançamento de A Piada Mortal (The Killing Joke, Alan Moore e Brian Bolland, 1988) e o lançamento de Coringa (The Joker, Brian Azzarello e Lee Bermejo, 2008).

Não são só o oportunismo e a edição luxuosa que unem as duas obras.

É, obviamente, seu protagonista; e, também, a violência.

Em A Piada Mortal, o Coringa aleija e supostamente estupra Barbara Gordon; tortura física e psicologicamente o Comissário Gordon. Em Coringa, o insano vilão quer reconquistar “sua” cidade depois de uma temporada no Asilo Arkham e, para isso, banha o submundo do Gotham City com sangue.

As semelhanças terminam aí.

Não são só os 20 anos de diferença que separam as duas obras. A Piada Mortal integrou o “movimento” que deu início a uma nova Era dos Quadrinhos em meados dos anos 80.

Fazem parte deste movimento, entre outras HQs, Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano 1, Ronin e Elektra Assassina, de Frank Miller; Watchmen e V de Vingança, de Alan Moore; a Mulher-Maravilha de George Pérez; o Superman, de John Byrne... Fazem parte deste movimento, entre outras características, heróis mais “humanos”, maior aprofundamento psicológico, “realismo” e experiências narrativas até então inéditas ou desconhecidas pelo grande público.

Se A Piada Mortal faz parte do início de uma Era, Coringa está no extremo oposto. A cabeça e a cauda. O início e o fim.

A HQ de Azzarello e Bermejo representa os estertores de um tipo de história que vem se repetindo e se consumindo em sua própria antropofagia. É o reflexo de anos de cópias mal feitas e exageradas daquelas histórias que inauguraram a nova Era e lhes serviram de inspiração.

Em Coringa, a violência não está a serviço da história. Para ressaltar artificialmente a maldade do protagonista, os demais vilões são ridicularizados: Pinguim é um velhote cagão; Duas-Caras, um bandido inseguro; Charada; um moleque drogado; Crocodilo, um crioulo acéfalo. A história é narrada em primeira pessoa por um ladrão de galinhas raso como um pires.

Em tempo: espero, de verdade, que o visual a la Heath Ledger pare por aqui.

Por uma questão de justiça, é preciso dizer que Coringa não é o maior expoente deste “sinal dos tempos”. Até o presente momento, este título pertence a All-Star Batman, de Frank Miller. O mesmo Miller que participou dos primórdios da atual Era dos Quadrinhos criou uma paródia de sua própria obra em que parece querer atropelar a ordem natural das coisas e antecipar o final deste ciclo, que virá mais dia menos dia. Alguns dizem que é proposital; tenho minhas dúvidas.

Curiosamente, a HQ que parece sinalizar o futuro dos quadrinhos pertence ao mesmo “selo”: All-Star Superman. Se meu raciocínio estiver correto, as histórias do próximo ciclo dos quadrinhos tendem a revisitar os clássicos e resgatar aquela inocência despretensiosa da Era de Prata. Os desenhos serão estilizados; simples sem ser caricatos.

Em outra mídia, o desenho animado Batman: The Brave and The Bold parece reforçar minha teoria. Mas até que este futuro chegue, temo que teremos que conviver por mais alguns anos com HQs como Coringa...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Artigo: Será que quem gosta de Alan Múúúúú também gosta de heroizinho azul de pinto mole à mostra?

Por Marconi Lapada
(ilustração de Matozo Neto)

Nota do Editor: este artigo foi enviado ao Papo de Quadrinho como resposta à coluna DataTársis Informa publicada no dia 4 de fevereiro e não reflete necessariamente a opinião deste blog ou de seu editor.

A bilionária indústria de quadrinhos dos Estados Unidos se move à base de propaganda incessante e cooptação de bobos úteis a seus planos de dominação cultural. Aqui no Brasil, essa indústria encontrou um terreno adubado e fértil para engordar sua conta bancária. Ou seja, não faltam bobos alegres brasucas para servirem de moleques de recados aos cartolas das grandes editoras.

O mais hilariante é que essas figurinhas tragicômicas, apesar de estarem sendo usadas como massa de manobra para arrebanharem mais compradores para a superada HQ gringa, ainda se arrogam de saberem tudo sobre quadrinhos. Leia-se: o "tudo" que sabem lhes foi transmitido por revistas "chapa branca".

Convencionou-se chamar essa manada de bobos-alegres de "alopradinhos" ou, como alguns se auto-classificam, "nerds".

A nerdaiada, no momento, está em alvoroço em decorrência das propagandas repassadas por uma mídia que se vende fácil a quem pagar mais. Os bobões aloprados Marvel e DC estão em frenesi na espera de mais um filmezinho insosso de super-heróis, agora baseado (?!) no mirabolante resultado de uma diarréia mental expelida pela mente pervertida e nublada por drogas do alucinado Alan Moore. Estou falando daquela droga impressa chamada Washman ou Atchimem, ou coisa que o valha. Ou seja, apenas um X-Men semi-pornográfico com toques meio extravagantes. Quem tem bom senso, bom gosto, não é chegado a ficar de contemplação a pênis azul à mostra, não gosta de ver quadrinhos com comissários de polícia pelados, agora vai ter de passar mal com o alarido que os aloprados farão antes e depois das idéias desvairadas daquele piolhento inglês desfilarem pela telona dos cinemas.

A vantagem para mim e alguns amigos com pensamento livre e idéias próprias é a de não cairmos nessa armadilha mercadológica e não assistirmos ao mais novo caça-níqueis computadorizado. Isto é, não cairemos na tolice de dar nosso suado e mirrado dinheiro para ir a um cinema ver outro besteirol da indústria dos comics. E melhor ainda, não teremos o desagrado de ver o pinto azul do heroizinho do Alan Moore na forma humana e tridimensional, junto com mais um grupelho de bestalhões fantasiados.

Quem deverá sentir turgescência com essa palermice cinematográfica são os nerds aloprados, os mesmos bobões extasiados de mentes infanto-juvenis que hoje bajulam e adulam o barbudo inglês de aspecto sebáceo. Também deverão estar presentes e exultantes na sala de projeção alguns cabeleireiros, maquiadores, estilistas, e talvez também fãs da Xuxa. E, por inferência simples, aposto que a alguns dias do lançamento, acampará na porta do cinema um certo bobalhão "escritor" de determinado artigo ridículo e idiota, onde não apenas soltou a franga, mas o galinheiro inteiro de elogios delirantes e imorais ao Rasputin dos quadrinhos.

Acontece que, toda essa idolatria burra e depravada é injustificada. Os aloprados dão importância demais àquele espantalho de urubu. O que ele faz hoje, brasileiros já fizeram com décadas de antecedência. Quadrinho adulto no Brasil existe desde os tempos do império, de autoria de Ângelo Agostini, quando lançou a primeira heroína erótica do mundo, a Iniaia, mostrando-se sempre nua e provocando os homens. Personagem antigo, horripilante e adulto, o Garra Cinzenta é brasileiro, dos anos 30. A sacanagem já corria solta nos anos 50 e 60, com Carlos Zéfiro e seus catecismos. Nos anos 70, Emir Ribeiro afrontava a censura militar com sua sensual Velta, tendo como inimiga a traveca espacial Doroti, nas páginas de um jornal de colégio.

Mas o rebanho não sabe nada disso, ou finge não saber. Só tem olhos para Marvel e DC, ou para Alan Moore. Quando é o barbudo bretão que bota heróis pelados de pinto azul ou travestis se masturbando numa história em quadrinhos, é elogiado como supra-sumo da genialidade, da inovação, da ousadia, do tapa na cara do sistema certinho dos comics. A ignorância, o preconceito e o ódio que os aloprados sentem por seu próprio país os cega para o óbvio e para os fatos comprovados de que artistas brasileiros já ousavam há bem mais tempo que Alan Múúúúú. Mas, sendo do Brasil, essas primazias são esquecidas, ignoradas ou ridicularizadas. Isso porque brasileiro sempre se sentiu pequeno diante dos estrangeiros e nasceu com aquela doença provinciana e servil da vassalagem aguda. Ou como já disseram pela net: "brasileiro tem tendência a ser capacho de estrangeiro".

Basta a mídia colocar o barbudo sebento no pedestal e lá vai a nerdaiada se ajoelhar, rezar de mãos postas para o céu e, se brincar, ainda se flagelam no concreto em imolação ao deus piolhento estrangeiro. Por quê? Porque ele vem da metrópole, do primeiro mundo, da fonte de toda a mídia, e por isso tem privilégio e pode se dar o luxo de segregar sua diarréia mais liquefeita e pútrida, que a manada brasileira vai sempre dizer amém aos berros de "É o máximo!" ou "É linda, maravilhosa e genial!".

Alan Moore, então, não é mais que um sujeito excessivamente super-valorizado por uma cambada estúpida manipulada e sem vontade própria.

Os quadrinhos não perderam a inocência com esse cara suja da Inglaterra. O terror adulto brasileiro de Shimamoto, de R. F. Lucchetti, de Nico Rosso, de Mozart Couto, de Watson e tantos outros já faziam a cabeça das massas bem antes. Todavia, o produto da província sempre passou a quilômetros dos olhos com viseiras nas laterais dessa jumentada tiete descerebrada. Essa turba é igual àqueles outros asnos que ficam ao relento no meio da rua, embaixo das sacadas de hotéis, esperando ansiosamente que o astro estrangeiro bote por um microssegundo a cara na janela, para depois explodir em delírio, se descabelando, pulando num pé só e caindo de bruços no asfalto, em convulsões esmunhecadas e aos berros: - Meu ídolo olhou para mim. Ai, ai, ai, ui, ui, ui. Estou feliz...

Os deuses gringos podem praticar crimes, consumir drogas, dar péssimos exemplos, mas o alopradinhos sempre verão quaisquer ações destes como excentricidades, atitudes ousadas, lindas, admiráveis, e geniais. Ou seja, arranjaram outro nome para viciado e toxicômano.

Isso nos leva a uma inquietante conclusão: os alopradinhos não se importam com a obra, mas somente com a deificação e a adulação doentia e desmedida. Quem vive em eterno estado de servilismo é assim, está sempre de cabeça baixa, de mãos postas esperando o deus deles dar nem que seja uma olhadinha para seu lado. Mas, nos quadrinhos, os deuses desse gado burro nem precisam olhar, bastam existir... Fico imaginando o Alan Moore aqui, na frente dos aloprados. Iam dar uma cheirada bem fungada e aspirante nos sovacos dele. Isso sendo bem leve na previsão, porque acho que iam cheirar outras partes.

Mas, como diz a regra da bajulação, quem não fizer parte do gado aloprado, não embarcando nessa salivação de ovo sem propósito, é qualificado de "chato", "invejoso", "retrógrado", "xenófobo" e até "preconceituoso". Depois, o próximo passo é fazer igual à propaganda nazista: repetir tanto a mentira que está alojada em suas cabeças que esta passa a ser a verdade absoluta e inquestionável.

Asilo, hospício e clínicas de desintoxicação cerebral para esses aloprados.

Falei.

Marconi Lapada é fundador da CQB – Central de Quadrinhos Brasileiros

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Problemas Modernos

Por Manoel de Souza

Há tempos ensaio escrever um artigo sobre scans de quadrinhos. Quando conheci essa prática, fiquei impressionado. Já trabalhei como editor de arte e sei bem como o processo é trabalhoso. Alguém escaneia página por página de uma revista, organiza as imagens, salva tudo em formato cbr (ou cbz) e posta em sites ou disponibiliza gratuitamente por meio de softwares de compartilhamento (como o BitComet).

O resultado é um arquivo muito parecido com o de apresentação do Powerpoint com diversas opções de visualização. Cada revista ocupa cerca de 4 ou 5 megas, o tamanho parecido de uma música em mp3. Daí vem a surpresa: basta uma pesquisa na net e logo aparecem coleções completas de Amazing Spider-Man ou Action Comics, por exemplo. Isso mesmo: completas e devidamente organizadas.

Claro que esse fato tem implicações legais, pois viola direitos autorais de artistas e empresas, coisa que, infelizmente, pouca gente se importa, ainda mais no Brasil. Tão sério quanto isso são as questões éticas e logísticas envolvidas. Se os leitores só consumirem scans e deixarem de comprar gibis impressos, o mercado quebra. Por outro lado, os scans são um tiro no pé para seus próprios adeptos. Se acabar a mídia impressa, logo não haverá mais o que escanear.

Então, basta condenar a prática dos scans e a situação está resolvida? Acho que não. É quase impossível controlar o tráfego de arquivos pela internet e condenar os responsáveis pelos sites que disponibilizam esse material. E a tendência é que a prática torne-se tão corriqueira quanto já ocorre com músicas e vídeos. Uma solução seria investir em HQs feitas especialmente para a net, mas há uma grande barreira: é difícil convencer as pessoas a pagar por algo que podem encontrar gratuitamente ou mais barato por meio da pirataria.

Obviamente, scans são prejudiciais para as editoras e não só as norte-americanas. Meses atrás, em uma de nossas comunidades da Mundo no orkut, um membro inocentemente publicou um link de sites onde podia-se baixar quadrinhos, inclusive material editado por empresas brasileiras, como um encadernado do Surfista Prateado (Mythos) e o livro Desvendando os Quadrinhos (Makron Books).

Pedi para o moderador da comunidade que o tal tópico fosse retirado. Ler scans e deixar de comprar a obra original na banca ou livraria é sacanagem, pois o trabalho de editores sérios deve ser recompensado. Desvendando os Quadrinhos é um puta livro e merece ser comprado. No caso da música, a situação é grave, mas os artistas pelo menos têm os shows ao vivo para se sustentar. No caso de revista em quadrinhos – em que existe pouca publicidade paga –, artistas e editores dependem quase que exclusivamente do que é vendido em bancas, livrarias ou por assinatura.

Não gosto de ler scans. A mudança de páginas é meio chata, o impacto das páginas duplas se perde, não há a agradável textura do papel e o calor do notebook no colo me enche o saco. Para mim, scans servem mais para pesquisas durante a criação de reportagens da Mundo. Fora que sempre fico com um pé atrás se eles são confiáveis. Graças ao Photoshop, é muito fácil mudar os diálogos ou mexer no conteúdo de uma HQ escaneada. Ok, ok, não dá para esperar excelência em produtos piratas. Aliás, nem sei se isso é pirataria pois não tenho notícia de alguém que tenha ganho dinheiro com scans. A galera parece fazer isso pela diversão mesmo e há até quem traduza as edições estrangeiras deixando os balões em português.

Mesmo assim, admito que existe um lado muito positivo nessa história toda. Scans são ótimos para se conhecer raridades que não estão mais nas bancas ou nunca estiveram. Caso de gibis obscuros da Era de Ouro, fanzines regionais com tiragem limitadíssima ou trabalhos independentes ainda inéditos no Brasil. Tenho uma filosofia: se eu gosto de uma revista que li na internet, me esforço o possível para comprar sua versão impressa. Faço questão de comprar tudo que acho legal, especialmente o material brasileiro.

Acredito que só assim podemos melhorar o mercado e pagar honestamente quem trabalha direito. Quem curte quadrinhos precisa consumir quadrinhos. Claro: mas só deve comprar o que realmente gosta e acha bem-feito. Não adianta comprar só para ajudar. Tanto o assistencialismo quanto a pirataria são ruins para o mercado.

Outra solução para amenizar o impacto negativo dos scans talvez seja criar versões digitais das revistas nos sites das próprias editoras. A cada edição da Mundo postamos uma versão que pode ser acessada gratuitamente. Mas, só consegue ampliar as imagens e ler o texto quem paga metade do valor de capa. Na prática, isso funciona mais como um preview do conteúdo da revista, pois já reparei que nossos leitores curtem mesmo é a Mundo em papel.

Para finalizar, uma dica do meu amigo Maurício Muniz. O site Wowio (www.wowio.com) oferece centenas de gibis – infelizmente achei pouca coisa de super-heróis – que podem ser lidos online. Baixar uma cópia custa 99 centavos de dólar. Experimentei e achei legal. Mas ainda prefiro meus gibis empoeirados...

Manoel de Souza (manoel.souza@europanet.com.br) é editor da revista Mundo dos Super-Heróis. Este artigo foi publicado originalmente na seção Etc&Tal da edição 14 da revista e reproduzido com autorização do autor.